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sábado, fevereiro 25, 2012

Aprendizagem: conceito, características, processos, etapas

 O formador é um facilitador de aprendizagem por isso tem como tarefa principal levar os formandos a aprender. Isto quer dizer que deve ser capaz de criar situações que favoreçam a aprendizagem. A aprendizagem é a capacidade de que quotidianamente necessitamos para responder adequadamente às diferentes solicitações e desafios que se nos colocam na nossa interacção com o meio.

Será que existe um único tipo de aprendizagem, ou seja, aprende-se sempre da mesma maneira, independentemente do objectivo da aprendizagem?
Por exemplo, durante um curso de formação quando se solicita aos formandos:
  • que reproduzam um determinado conceito teórico;
  • que a partir dos conceitos teóricos transmitidos resolvam um problema;
  • que façam uma demonstração prática.

Será que nas três situações apresentadas está presente o mesmo tipo de aprendizagem e serão os mesmos os processos cognitivos (mentais) em jogo?

Para se conseguir realizar as diferentes tarefas constatamos que, provavelmente, existem vários tipos de aprendizagem e diferentes processos cognitivos.
Para que o formador consiga cumprir a sua tarefa de facilitador de aprendizagem é necessário que compreenda o que se passa na cabeça do “sujeito que aprende”. Esta análise pode ajudá-lo a planificar a formação de modo a rentabilizar os processos internos intervenientes na aprendizagem. Com o intuito de auxiliar os utilizadores/futuros formadores a atingirem estes objectivos, o presente módulo vai abordar um conjunto de conceitos e reflexões sobre:
  • conceitos e características da aprendizagem;
  • teorias, modos/modelos/mecanismos de aprendizagem;
  • processos, etapas e factores psicológicos da aprendizagem;
  • fontes e métodos de motivação.
 Ideias a reter
  • a aprendizagem tem um carácter pessoal;
  • a aprendizagem não se vê em si mesma, mas apenas nos seus efeitos, ou seja, nas modificações que opera no comportamento exterior, observável do sujeito;
  • a contrapartida exterior da aprendizagem, traduz-se em acções que o sujeito não era capaz de realizar antes, e que passa a conseguir depois do período de aprendizagem;
  • é através das manifestações exteriores que se vê se o sujeito aprendeu, mas estas só se revelam se no interior do sujeito tiver ocorrido um processo de transformação e mudança.
Pretende-se que, ao ler esta secção, fique apto a identificar os principais factores e as condições facilitadoras no processo de aprendizagem.
  
 Ieias a reter
  • os adultos têm uma percepção diferente da percepção das crianças e posicionam-se, face à aprendizagem, de modo diferente.
  • as diferentes formas como se aprende implicam, por sua vez, diferentes processos de aprendizagem.
  • os processos cognitivos presentes na realização das tarefas de aprendizagem dependem da natureza dessa mesma tarefa, isto é, do domínio visado pelos objectivos.
  • o formador deve criar situações que favoreçam a aprendizagem. Facto que implica o conhecimento dos diversos factores facilitadores da aprendizagem.
 Processos de aprendizagem

A função de qualquer teoria de ensino/formação é dar a conhecer que diferentes tipos de aprendizagem:
  • implicam diferentes processos cognitivos;
  • pressupõem diferentes capacidades;
  • exigem níveis de resposta diferenciados.
Estes constituem aspectos facilitadores ou inibidores das aprendizagens em jogo.
O formador é, antes de mais, um facilitador de aprendizagem funcionando como mediador entre os saberes que o formando já tem e os que necessita de adquirir. O conhecimento dos processos cognitivos envolvidos na resolução das diferentes tarefas de aprendizagem, ajuda quer o formando, quer o formador a optimizarem o seu trabalho. Para o formando, conhecer os processos cognitivos, ajuda-o a encontrar as estratégias e as soluções adequadas às diferentes tarefas de aprendizagem; ao formador, ajuda-o a escolher os tipos de aprendizagem mais úteis e ajustados aos objectivos pretendidos e a criar condições de aprendizagem que facilitem a realização destas mesmas tarefas. Como se constata no quadro seguinte, aprendemos de várias formas, e as diferentes formas como aprendemos, implicam processos de aprendizagem diferentes

Aprendemos
Processos de Aprendizagem Teorias / Principais Representantes
  • Fazendo / Experimentando
  • com o erro
  • repetindo
  • memorizando
  • imitando
  • reproduzindo o modelo
Condicionamento ou Aquisição de automatismos

Modelagem ou Reprodução de Modelos
Comportamentalistas
 Behavioristas  Watson,
Thorndike, Skiner.

Aprendizagem
Social (Modelling), (Albert Bandura)
  • com o grupo
  • com a situação
  • com o problema
  • descobrindo
  • transferindo
  • associando/dissociando
  • estruturando
  • analisando
  • contextualizando
  • aprendendo a aprender

Factores que influenciam a aprendizagem

Uma das preocupações que o formador deve ter quando planifica sessões de formação, é criar situações que favoreçam a aprendizagem, tendo em conta três variáveis:
  • o que vai ensinar (objectivos/domínios da aprendizagem);
  • como ensinar (estratégias);
  • a quem ensinar (público alvo).
Existem factores internos e externos ao próprio indivíduo, que podem facilitar ou inibir o processo da aprendizagem.
Alguns destes factores estão relacionados com características das pessoas a quem se destina a formação.
O público alvo da formação profissional é, normalmente, constituído por adultos, o que implica procedimentos necessariamente diferenciados, na medida em que a aprendizagem adulta é substancialmente diferente da aprendizagem da criança e, por isso, o formador não pode ter o mesmo tipo de abordagem perante estes dois públicos distintos.
A investigação em Pedagogia de Adultos tem vindo a demonstrar que, ao contrário da crença generalizada de que "Burro velho não aprende línguas", os adultos aprendem também com facilidade desde que motivados e activos. As diversas metodologias de “transmissão” de informação numa situação de ensino/aprendizagem possuem resultados distintos na aprendizagem de adultos.

As diferenças entre as crianças e os adultos implicam alguns cuidados, que o formador deve ter, para evitar situações de insucesso e frustração, pois os adultos possuem uma fraca resistência ao fracasso em situações de ensino-aprendizagem. Possuem uma dada experiência de vida, crenças e valores acerca do mundo e dos outros, e pôr em causa os seus desempenhos, é pô-los em causa a eles enquanto pessoas. Tanto as crianças como os adultos esquecem facilmente aquilo que ouvem, ou que lêem. Mais ainda, após os 30 anos de idade, as nossas capacidades de memorização decaem. Obrigar adultos a dependerem essencialmente da memória, auditiva ou visual, é fazer uma opção pedagógica incorrecta.
Os indivíduos em formação compreendem aquilo que está a ser dito; mais tarde, serão confrontados com a surpresa desagradável de não conseguirem reproduzir essa mesma informação. Este facto, ao ser interpretado como falta de capacidades para aprender, poderá conduzir a uma perda de autoconfiança, a frustração e desmotivação face a futuras aprendizagens.
Assim, para que a prática pedagógica conduza ao sucesso da aprendizagem, o formador deve ter em conta o seguinte:
  • o nível de dificuldade das actividades propostas, deve estar ao alcance de todos;
  • o formador deve garantir a resolução mínima dos exercícios por todos os participantes;
  • as correcções necessárias não devem assumir a forma de crítica destrutiva, mas devem ser feitas em forma de sugestão, ou de incentivo ao debate, conduzindo à auto-descoberta e à auto-transformação;
  • é muito importante a informação sobre os resultados obtidos e reforçar positivamente (reduz a insegurança).
Outro tipo de factores que podem condicionar a aprendizagem são os internos ao próprio indivíduo, que fazem parte quer das suas características de personalidade, quer das suas características físicas:
  • Factores cognitivos
    • Percepção
    • Atenção
    • Memória
  • Factores socioculturais
    • Família
    • Grupos de pertença
    • Comunidade
    • Sociedade (valores, representações e estereótipos)
  • Factores biológicos
    • Neurofisiológicos
    • Genéticos
  • Factores emocionais
    • "Estados de espírito"
Existem também factores externos ao próprio indivíduo, que podem facilitar o processo da aprendizagem (são da responsabilidade do formador):
  • definir objectivos e dá-los a conhecer;
  • avaliar pré-requisitos;
  • explicitar as estratégias;
  • motivação (situar num contexto);
  • manter o grupo activo e participante (proporcionar trabalhos de grupo e de investigação);
  • utilizar os meios técnicos e práticos disponíveis (vídeo, retroprojector e outros);
  • fazer sínteses parcelares e conclusões;
  • exercícios práticos;
  • fazer a avaliação da aprendizagem;
  • discussão dos resultados.
A aprendizagem significativa, é favorecida pelos processos interactivos que se estabelecem, em relação aos quais o formador tem um papel importante, na medida em que depende dele o “clima”, o “estilo” de relações psicossociais que se estabelecem durante a formação, assim:
  • a aprendizagem deve processar-se num clima de confiança e abertura que propicie a partilha de experiências e vivências, visando um enriquecimento mútuo;
  • a aprendizagem não deve ser estanque mas negociada, os objectivos devem ser explícitos e partilhados;
  • a aprendizagem deve situar-se relativamente a um quadro de referência, apelo às experiências e vivências dos formandos, no sentido de os motivar e implicar;
  • a aprendizagem deverá ser dirigida para o aqui e agora dos acontecimentos, as finalidades devem ser explícitas.
ntuição ou descoberta (Insight)



Estruturação ou elaboração da informação
Cognitivistas (Wertheimer,
Köhler, Koffka, Lewin, Piaget,
Bruner, Ausubel, Chomsk

Objectivos e domínios da aprendizagem

Como já foi referido, as tarefas de aprendizagem são múltiplas. Apesar desta multiplicidade podemos dividi-las em três grandes grupos ou domínios de aprendizagem (divisão proposta B. Bloom).

Contudo, esta divisão não significa que estes domínios se excluam, antes pelo contrário, o desenvolvimento de cada um pressupõe o desenvolvimento dos outros. Ela justifica-se por uma questão de sistematização e, ainda, porque é importante para o formador saber qual é o domínio predominantemente visado pelos objectivos de aprendizagem, para adoptar os procedimentos adequados e criar as condições necessárias à realização das tarefas propostas:
  • domínio psicomotor (saber–fazer) – domínio das actividades motoras ou manipulativas. Conduzem ao desenvolvimento e aplicação das actividades motoras;
  • domínio cognitivo (saber-saber) – domínio da actividade mental ou intelectual. Diz respeito à aquisição de informações, ao desenvolvimento de capacidades e estratégias cognitivas e à sua aplicação a situações novas;
  • domínio afectivo (saber-estar/ser/atitudes) - domínio dos fenómenos da sensibilidade; envolvem interesses, atitudes e valores.
Como se pode ver no quadro resumo seguinte, os processos implicados na aprendizagem variam consoante os objectivos de aprendizagem visados:
Processos de Aprendizagem Objectivos Visados Domínios da Aprendizagem
Condicionamento ou Aquisição de Automatismos
  • Desenvolvimento da memória reprodutora
  • Aquisição de automatismo /gesto /destreza /performance
Psicomotor (saber fazer)
Intuição ou Descoberta
  • Desenvolvimento da intuição /da criatividade /da capacidade de resolução de problemas / da tomada de decisão /da autonomia /da capacidade de trabalhar em grupo
Afectivo (saber estar/ atitudes)

Cognitivo (saber saber)
Estruturação ou Processamento da Informação
  • Desenvolvimento da memória organizativa /do pensamento lógico /da capacidade de organização /estruturação /da capacidade de análise e síntese /da capacidade para a auto-formação
Cognitivo (saber saber)
Reprodução do Modelo ou Modelagem
  • Desenvolvimento da capacidade de observação /da memória afectiva e reprodutora /capacidade de reprodução rápida do “modelo“
Afectivo (saber estar /atitudes)

Psicomotor (saber fazer)